O que é moda?
A moda transcende fronteiras e ao longo da história tem sido um espelho da diversidade e da identidade de várias sociedades. Como apontado por Julia Vidal em seu livro "O africano que existe em nós, brasileiros" (2014, p. 39), a palavra "moda" engloba conceitos relacionados ao estilo de vida, preferências, hábitos e costumes que predominam em determinado período ou local, além de estar intrinsecamente ligada à expressão artística do vestuário.
A moda se limita apenas a roupa?
No entendimento de Vidal (2014), a moda não se limita apenas à roupa que vestimos; ela também é uma manifestação que se ajusta aos valores e tradições de uma determinada comunidade, ao mesmo tempo em que exerce influência e é influenciada por uma sociedade em constante transformação. Nesse contexto, a moda assume o papel de refletir a identidade cultural de um povo.
A moda e a diversidade cultural
Segundo o censo do IBGE (2022), a população brasileira é composta por 47% de pardos, 43% de brancos, 9,1% de pretos e menos de 1% de amarelos ou indígenas. Sem dúvida, essa rica diversidade cultural influencia a moda brasileira. No entanto, será que reconhecemos plenamente a origem multifacetada da moda? Será que olhamos para além das tendências dos desfiles de moda de Paris e do modelo de moda "fast fashion" norte-americano? Embora essas influências desempenhem um papel na moda brasileira, elas não são as únicas nem as mais impactantes.
Apesar da população brasileira ser majoritariamente formada por pessoas negras, podemos afirmar que, no geral, existe um não saber derivado do processo de apagamento referente a boa parte de práticas originadas da cultura afro. Já parou para refletir sobre a origem dos costumes de usar renda branca em ocasiões festivas ou por que a maioria das pessoas escolhe roupas dessa mesma cor na virada do ano? Esses são elementos culturais profundamente influenciados pela cultura africana. Uma influência que, apesar de estar intimamente entrelaçada em nosso cotidiano, muitas vezes é relegada à invisibilidade.
Dos diversos elementos culturais que representam distintas culturas, a moda está entre aqueles que desempenham o papel de classificação, distinção e pertencimento identitário.
A hipótese de que a ideia de moda no Brasil foi formada a partir de concepções culturais europeias, outras manifestações da moda como a afro-brasileira deixaram de ser contempladas, foram veladas para a sociedade brasileira e precisam ser resgatadas para a valorização dos grupos sociais e profissionais a elas vinculados.
Conheça mais sobre o projeto
O projeto "Influência Negra na Moda Brasileira: Resgate Histórico e Divulgação Cultural" tem como objetivo oferecer um panorama da presença da cultura africana na moda do Brasil. Ao abordar essa temática, busca-se promover o conhecimento sobre a moda afro-brasileira, além de discutir questões identitárias e étnico-raciais, ressaltando as contribuições da cultura afro à sociedade brasileira.
Assista nosso vídeo!Será que a população de Guarulhos reconhece a influência negra na moda brasileira?
Foi realizada uma pesquisa quantitativa com 80 pessoas estratificadas conforme seus grupos raciais, a fim de explorar o imaginário popular a cerca da moda afro-brasileira.
Quais foram os grupos raciais dos respondentes?
O grupo de respondentes foi composto por 55% que se identificaram como pardos ou pretos, enquanto 43,8% se consideraram brancos. Além disso, 1,2% optaram por não informar sua identidade racial.
Há um reconhecimento da influência negra na moda brasileira?
A grande maioria dos respondentes, 98,8%, reconhece a influência da cultura negra na moda brasileira, indicando uma forte conscientização sobre esse aspecto
Quais elementos são influenciados pela cultura negra?
Apenas 23,75% dos participantes identificaram corretamente todos os elementos listados como influenciados pela cultura negra, evidenciando uma dificuldade em reconhecer essas influências no cotidiano.
Quem conseguiu reconhecer que todos os elementos eram influenciados?
As respostas sobre o reconhecimento dos elementos da moda afro-brasileira foram estratificadas. Entre os brancos, 22,86% conseguiram identificar todos os elementos, enquanto essa taxa foi ligeiramente maior entre os pardos e pretos, alcançando 25%.
Quem é o público alvo da moda afro-brasileira?
As percepções dos participantes sobre o público-alvo da moda afro-brasileira revelaram que 50% dos entrevistados acreditam que o principal público é composto por pessoas negras e afro-brasileiras. Outros 15% consideram que o público inclui comunidades e grupos relacionados, enquanto 20% veem a moda afro-brasileira como destinada a todos os públicos. Apenas 10% a veem como voltada para pessoas interessadas em moda e cultura, e 5% não ofereceram uma resposta clara.
Você já teve contato com a moda afro-brasileira?
68,8% dos participantes relataram já ter tido contato com a moda afro-brasileira. Curiosamente, a taxa de respostas afirmativas foi ligeiramente maior entre os brancos (68,57%) em comparação aos pardos/pretos (65,91%).
Microempreendedores da moda afro-brasileira
Aqui está alguns designers de moda afro-brasileira que indicamos S2
Quais são os elementos da moda brasileira que tem influência da cultura negra?
- Tudo
- Vestuário
- Acessórios
- Penteados
Preferência por usar roupas brancas no ano novo
Esse costume está muito presente em nossa sociedade brasileira e tem influência do Candomblé (religião de matriz africana).
Na década de 70 pessoas viram membros dessa religião utilizando-se do branco para fazer rituais e com isso o uso se popularizou.
Algodão branco
No período escravocrata as pessoas que haviam sido escravizadas utilizavam-se do algodão para fazer suas roupas, eles o faziam de algodão rústico.
Estampas
A cultura africana no geral se utiliza muitas cores e estampas dotadas de significados.
No brasil podemos ver como a moda africana se misturou com o clima tropical brasileiro criando assim uma identidade única no visual brasileiro.
Miçangas e búzios
As miçangas estão presentes em muitas culturas. Na cultura africana são utilizadas para adornos e são dotadas de simbologias, tendo como peças significativas os búzios e figas.
Analisando o contexto brasileiro percebemos que estas estão muito presentes na Umbanda, religião de matriz africana nascida no Brasil, sendo usadas como forma de proteção.
Podemos ver colares de miçanga com búzios frequentemente no ambiente praieiro, tendo sido apropriado para um contexto de Brasil tropical.
Turbante
O turbante é um acessório da cultura negra que foi adotado pela comunidade como um símbolo do resistência.
Tornozeleira
Na época da escravatura os senhores pensavam em instrumentos de aviso em caso de fulga. Um instrumento por eles utilizado era colocar argolas de metal em cada coxa, como também em seus tornozelos.
Esse elemento tão brasileiro presente no contexto da moda de um país de clima tropical.
Renda branca em ocasião festiva
Vestido de renda brancas são usadas por mulheres umbandistas para barrar a energia ruim em dias de trabalho mediúnico.
Dreadlocks
Muito comum entre os seguidores do movimento Rasta que teve sua origem na África entre os anos 30 e 40, tendo ficado muito popular na Jamaica após o fim da escravatura.
No Brasil, apesar de não serem muito comuns a população no geral, estão presentes na moda brasileira.
Trança
Esse penteado é um tanto quanto polêmico em nossa sociedade brasileira e ainda á muito apontado a apropriação cultural a cerca dele.
Existem vários tipos de tranças como nagô, box braids e twist, essas sendo dotadas de significado e também sendo usadas como expressão de identidade, expressão e resistência.
O que é apropriação cultural?
A apropriação cultural é um fenômeno complexo que envolve a incorporação de elementos de uma cultura por indivíduos ou grupos de fora dessa cultura, muitas vezes sem o devido respeito pelo seu significado original. No Brasil, esse processo é particularmente visível em relação à cultura negra, que tem sido historicamente marginalizada e despojada de seus significados. Conforme aponta E. Silva (2018) em seu texto “Apropriação cultural da estética negra no cenário brasileiro”, essa dinâmica resulta no esvaziamento e na banalização de bens culturais de matriz africana, transformando-os em mercadorias exóticas.
Como ela se apresenta?
Um exemplo emblemático dessa apropriação é o caso da marca Farm, que, em 2014, foi criticada por utilizar a figura de uma modelo branca representando Iemanjá em uma campanha publicitária, desconsiderando o profundo significado religioso e cultural associado ao Orixá. A repercussão gerou críticas, incluindo uma declaração do rapper Emicida, que ressaltou a falta de representatividade e autenticidade ao usar a cultura afro como base de criação, sem incluir modelos negros. Além disso, a coleção "Black Retrô" da Farm em 2015 evidenciou como a população negra é frequentemente confinada a espaços temáticos, em vez de ser integrada à moda de maneira mais ampla e representativa.
Mas afinal, no que isso afeta os que tiveram sua cultura apropriada?
A apropriação cultural impacta profundamente aqueles cujas culturas são apropriadas. Quando o turbante se tornou uma tendência de moda, muitos consideraram isso um desrespeito à cultura afro-brasileira, que valoriza esse adorno há gerações. A rapper Azealia Banks ressaltou essa tensão ao afirmar que "está na moda ser negro, desde que você não seja negro", evidenciando a exclusão das vozes negras.
Pequenos empreendedores que vendiam turbantes não se beneficiaram do aumento da demanda, enquanto grandes empresas começaram a produzi-los em massa, prejudicando esses pequenos produtores. A mercantilização do turbante por grandes marcas ignora seus significados e agrava a marginalização das comunidades que tradicionalmente utilizam esse adorno. A questão central não é limitar o acesso aos produtos, mas garantir o respeito aos seus significados e promover uma troca que valorize a diversidade e os direito das culturas marginalizadas, respeitando a produção original.
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